domingo, 24 de agosto de 2014

Costa do Marfim Planeja Sua Expansão

Passei duas semanas na Costa do Marfim durante o mês de agosto. A principal razão para ter ido nesta época foi para participar da reunião anual da Associação das Igrejas Batistas Livres da Costa do Marfim. A reunião aconteceu em Doropo, no extremo nordeste do país, local em que moramos de 1985-2000. Os relatórios apresentados me permitiram sentir o crescimento da Igreja e a diversidade de suas atividades.
  


A associação nacional é dividida em três associações regionais, sendo cogitada a criação de uma quarta. Os relatórios destas regiões demonstraram que existem atualmente 108 igrejas Batistas Livres com quase 5.100 adeptos. Não consegui um número exato, mas pelo menos quatro novas igrejas foram plantadas no último ano. Um dos projetos da associação é a criação de um comitê nacional de evangelismo, plantação de igrejas e missões. O objetivo é evangelizar e plantar igrejas em todas as regiões da Costa do Marfim e enviar missionários para além de suas fronteiras. Já existe um pastor marfinense que trabalha no Senegal onde implantou uma igreja.

O seminário está passando para a fase final na formação de seis pastores que estão entrando em seu estágio. Dois projetos interessantes do seminário para conseguir reduzir sua dependência financeira são: o desenvolvimento da apicultura e um pomar de cajueiros para exploração da noz de caju. Os dois projetos estão começando a dar lucro e ajudando no sustento.

As igrejas também têm se sacrificado para a construção de uma escola primária cristã. Já levantaram as paredes e cobriram o prédio. Agora falta fazer o acabamento, conseguir a autorização de funcionamento e começarem as aulas. A esperança é poder começar a funcionar já no ano que vem.

A ONG BERACA, composta por membros de nossas igrejas marfinenses, é a mantenedora do Hospital Batista de Doropo, de um projeto de alfabetização e de outro de prevenção da AIDS. Apesar dos poucos recursos, eles têm lutado bravamente para fazer uma diferença em suas comunidades. O hospital completou 50 anos e está necessitando urgentemente de uma reforma geral e modernização das suas instalações e de seu equipamento. Estamos procurando doadores para este projeto urgente.


Além de participar da reunião da associação e de seus diferentes comitês com as quais a Missão tem parcerias, pude participar de alguns cultos, uma ordenação de diáconos e a abertura do acampamento de jovens (com 200 participantes). Ore pelos nossos irmãos da Costa do Marfim.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

No Limite

Fetiches
Quase não consegui acreditar nos meus olhos ao ler o relato do Pr. Paul Amiezi do que aconteceu na IBL de Doropo, Costa do Marfim, África. No início de junho deste ano um senhor de mais idade, que se chama Hien, veio de uma vila na fronteira com o Burkina Faso para falar com a liderança da igreja para dizer que o seu fetiche (ídolo) estava exigindo muito dele e ele queria se tornar cristão. É bem conhecido que os cristãos não têm fetiches. O evangelho foi explicado para ele e recebeu instruções para voltar quando estivesse disposto a seguir a Cristo.

Não se teve mais notícias dele até o dia 6 de julho. Naquela noite o culto foi realizado do lado de fora, pois não havia energia elétrica. No final do culto o senhor Hien veio falar com a liderança par dizer que ele trouxe o seu fetiche e queria que fosse queimado, simbolizando o seu abandono da adoração do ídolo. Quando abriram o saco que ele trazia, acharam a cabeça de um jovem que tinha sido recentemente decepado do corpo. Ele matou o jovem com um tiro e depois o decapitou. O senhor Hien explicou que o seu ídolo tinha exigido que fizesse um sacrifício humano para que pudesse sarar de sua doença. Ele sofre de epilepsia (conhecido na região como “doença da ave”, devido aos movimentos dos braços de uma pessoa durante a convulsão). Esta enfermidade é vista como sendo de origem espiritual. A polícia foi chamada e o homem está na cadeia.

Este caso ilustra claramente a escuridão spiritual, a dor, o sofrimento e o medo das pessoas que adoram estes espíritos e são aprisionados por eles, tendo medo do que pode acontecer se não obedecerem às exigências absurdas dos maus espíritos. Somente o evangelho pode trazer liberdade espiritual aos que estão escravizados por Satanás. É por isso que enviamos missionários para anunciar o evangelho aos que estão desesperadamente necessitados desta luz.


Mas levanta-te e põe-te em pé. Foi para isto que te apareci: para te fazer servo e testemunha... Eu te livrei deste povo e dos gentios para os quais te envio, para lhes abrir os olhos a fim de que se convertam das trevas para a luz, e do poder de Satanás para Deus, para que recebam o perdão dos pecados e herança entre os que são santificados pela fé em mim” (Atos 26:16-18).

quinta-feira, 26 de junho de 2014

O Estado da Alma Após a Morte

Qual é o estado da alma após a morte física? É aniquilada (deixa de existir), entra em estado de sono até o dia da ressurreição, ou continua viva e consciente? Encontramos, na Bíblia, alguma indicação quanto ao destino da alma além vida?

Felizmente a Bíblia nos oferece respostas a estas indagações. Após a morte física, a alma continuará consciente e irá ou para um lugar de paz e felicidade (céu) ou para um lugar de tormento (inferno), dependendo da decisão que a pessoa tenha tomado enquanto viva.

A história relatada por Jesus em Lucas 16:19:31 nos abre uma janela para a vida após a morte: Lázaro, foi para junto de Abraão e o rico, foi para um lugar de tormento. Ambos tinham consciência de onde estavam, do sofrimento e dos que ainda estavam vivos na terra. A história também nos mostra que podiam raciocinar.

No livro de Apocalipse João relata, em 6:9-11, que as almas dos que morreram clamavam a Deus por justiça.  Encontravam-se, portanto, conscientes. Em 7:9-10, as almas dos salvos de todas as tribos, povos e nações louvavam a Deus.

Em  Lucas 23:43, Jesus, na cruz, falou para o ladrão que havia crido nele, que naquele mesmo dia estaria com Jesus no paraíso. Isto nos mostra que a alma do ladrão arrependido não iria simplesmente passar a um estado de inconsciência, mas teria comunhão com Jesus no paraíso.

Em 2 Coríntios 5:6-8, Paulo nos diz que, quando estamos no corpo (vivos, sobre esta terra), estamos longe do Senhor (longe de onde ele habita) mas, quando estamos ausentes do corpo (morte física), habitaremos com o Senhor, o que é muito preferível. Se é preferível habitar com o Senhor após a morte física, quer dizer que teremos consciência de que isto é prazeroso. Em Filipenses 1:23, falando sobre o dilema de permanecer nesta terra ou de estar com o Senhor, Paulo novamente fala da vantagem de estar com o Senhor, o que presume um estado de consciência da alma.

No Salmo 115:17 pode, à primeira vista, parecer que os mortos entram em estado de sono, pois diz que “os mortos não louvam o Senhor, nem os que descem à região do silêncio”. Precisamos entender que o salmo fala do ponto de vista dos humanos que aqui ficam. Estes não veem os mortos louvarem a Deus. “Região do silêncio” não é o silêncio da alma, mas o silêncio do túmulo, onde fica o corpo físico. Tudo fica mais claro no versículo seguinte (v. 18), quando o salmista diz: “Nós (os salvos), porém, bendiremos ao Senhor, desde agora e para sempre. Aleluia”. O nosso louvor começa nesta vida e continua, sem interrupção, por toda eternidade.

A Bíblia frequentemente refere-se à morte como dormir, um estado transitório de sono (já que o corpo ressuscitará), porém jamais afirma que é a alma que dorme. Esta expressão, na Bíblia, é um eufemismo para falar da morte fícisa. O corpo de uma pessoa morta (cadáver) sempre nos dá a impressão de alguém que esteja dormindo. Também é uma expressão usada para enfatizar que a morte não é o fim e que temos a promessa da ressurreição.


Não se iluda pensando que após a morte sua alma deixará de existir ou que então entrará em um “sono”, sem consciência. A alma é eterna e permanecerá consciente, seja em ambiente prazeroso na presença de Deus ou, então, em tormento, longe da presença do Mestre.


terça-feira, 17 de junho de 2014

Personalidade, Tradição e Espiritualidade

Em um capítulo de um livro de David Teague[1] que li recentemente, o autor faz a pergunta: “Nossa personalidade pode moldar nossa espiritualidade?”. Boa pergunta. Comecei a refletir mais sobre esta questão. Quando observamos pessoas que conhecemos como verdadeiros cristãos, podemos reparar que, no que tange à vida espiritual, suas preferências e expressões de adoração e serviço a Deus são bastante variadas.

Como sabemos, as pessoas possuem personalidades diferentes umas das outras. Uma das formas mais conhecidas de classificação de personalidades considera quatro áreas do pensamento e comportamento humano. As diversas combinações possíveis destas áreas levam aos tipos de personalidade. Vejamos estas áreas[2].

Atitudes: Extrovertidos e Introvertidos
O extrovertido obtém sua energia da ação; gosta de realizar várias atividades; age primeiro e depois pensa. Gosta de estar com as pessoas e renova suas energias através desta interação. O introvertido obtém sua energia das ideias; prefere refletir antes de agir e, novamente, refletir. Precisa de tempo para pensar e recuperar sua energia. A interação com as pessoas esgota sua energia.

No campo da espiritualidade é muito comum vermos esta diferença. Algumas pessoas preferem expressões corporativas de adoração e oração e sentem uma maior conexão com Deus nestes momentos mais agitados, sendo a adoração e a oração particulares mais difíceis e de menor significado espiritual. Por outro lado, outras pessoas tendem a se distrair e ficam incomodadas durante a adoração corporativa e sentem-se mais próximas de Deus quando estão sozinhas em um ambiente calmo e contemplativo.

Funções: Sensoriais e Intuitivos
As pessoas sensoriais confiam mais em coisas palpáveis, concretas, informações sensoriais. Gostam de detalhes e fatos. Para elas o significado está nos dados. Precisam de muitas informações. Ao contrário, pessoas intuitivas preferem informações abstratas e teóricas, que podem ser associadas com outras informações. Gostam de interpretar os dados com base em suas crenças e experiências pessoais. Trabalham bem com informações incompletas e imperfeitas.

A espiritualidade reflete estas diferenças. Os sensoriais preferem uma espiritualidade mais concreta, mais facilmente explicada com base nos fatos e nas doutrinas. Os intuitivos tendem a dar uma importância menor às doutrinas e valorizam mais suas experiências e a aplicabilidade de sua fé.

Decisões: Racionalistas e Sentimentais
Esta área descreve como as decisões são tomadas. Os racionalistas decidem com base na lógica e procuram argumentos racionais enquanto que os sentimentais decidem com base em seus sentimentos.
Na vida espiritual isto também acontece. Os racionalistas se lembram de princípios bíblicos que são aplicados de maneira racional na hora de tomar decisões. Os sentimentais tendem a fazê-lo de acordo com o que sentem, o que parece ser certo.

Estilo de Vida: Julgadores e Perceptivos
Os “julgadores” gostam de viver uma vida bem regrada onde não haja grandes surpresas: as coisas acontecem no horário e tudo está em ordem. Gostam de organização, programação e horários. Os “perceptivos” preferem viver a vida de forma mais espontânea, não fazem questão de serem interrompidos e levados a fazer uma coisa inesperada. Sentem-se à vontade trabalhando com o incerto e o desconhecido, sendo também mais desorganizados.

Na igreja vemos estas diferenças. Alguns têm a tendência de precisar conhecer e estabelecer metas, programações, horários e liturgias. São bem organizados e se frustram com os que não são. Outros são mais desorganizados e retardatários, preferindo ser espontâneos e lidam bem com a incerteza.

Nenhuma destas opções é certa ou errada; apenas traduz a preferência pessoal ligada à personalidade de cada um. Cada uma delas possui seus pontos fortes e suas fraquezas, que precisam ser conhecidos para se evitar o extremismo. A tendência de cada um é achar que o seu jeito de pensar ou agir é o correto. Tomando por base a nossa preferência na expressão da nossa espiritualidade, baseado na nossa personalidade, facilmente julgamos a espiritualidade dos outros. O extrovertido que gosta de um culto mais agitado e celebrativo com a presença de muitas pessoas pode julgar o introvertido como um alienado e espiritualmente frio. O introvertido que prefere um grupo menor ou um tempo mais contemplativo a sós com Deus pode julgar o extrovertido como superficial e não espiritual. E por aí vai. É necessário reconhecermos, respeitarmos e apreciarmos nossas diferenças.

Tradições Espirituais Diversas
Além das diferenças em nossas personalidades, existem também diferenças relativas à nossa tradição cristã. Desde os primórdios do cristianismo, várias tradições têm se desenvolvido, cada uma dando maior ênfase a alguns aspectos da vida cristã. Richard Foster[3] fez um excelente trabalho de identificação, resumindo-as em seis tradições espirituais. Vejamos as suas características.

Tradição contemplativa – uma vida voltada à oração. A ênfase desta tradição é na necessidade de uma aproximação com Deus através da contemplação. Esta se pratica principalmente através da meditação e da oração. Há uma longa história de homens e mulheres que chegaram a se isolar parcialmente ou completamente do mundo (místicos, movimento monástico) para se dedicar mais à meditação e à oração. Outros procuraram integrar a prática da consciência da presença de Deus em suas atividades diárias.

No Antigo Testamento temos os exemplos de Daniel (que tinha a prática de orar três vezes ao dia) e David (através da poesia e da música). Quando Jesus tinha uma semana de idade, seus pais o levaram ao templo onde encontraram Ana, uma viúva idosa que “não se afastava do templo, cultuando a Deus dia e noite com jejuns e oração” (Lc 2:36-37).

Tradição “holiness” – uma vida virtuosa. A ênfase desta tradição é o viver virtuoso, santo, de piedade. Através da história cristã temos não somente indivíduos, mas também movimentos (como os puritanos e pietistas) que eram conhecidos pelo seu rigor na prática das virtudes.

No Antigo Testamento temos o clássico exemplo de José, jovem piedoso e correto. Quando os inimigos de Daniel procuraram um motivo para acusá-lo, “não conseguiram encontrar motivo ou falta alguma, porque ele era fiel, e não havia nenhum erro ou falta nele” (Dn 6:4). Maria foi escolhida para ser a mãe física de Jesus por ser uma jovem íntegra e piedosa.

Tradição carismática – uma vida no poder do Espírito. Esta tradição se caracteriza pela ênfase em ser cheio do Espírito Santo e viver a vida cristã na dependência dele. Grande destaque é dado às manifestações sobrenaturais do poder de Deus.

No Antigo Testamento a dupla de profetas Elias e Elizeu foram poderosamente usados por Deus e seus ministérios caracterizados pelos milagres realizados. No Novo Testamento os apóstolos de Jesus operaram muitos sinais e maravilhas pelo poder do Espírito e Estevão foi descrito como “homem cheio de graça e poder” que “realizava feitos extraordinários e grandes sinais entre o povo” (At 6:8).

Tradição da justiça social – uma vida de compaixão. Esta também é uma longa tradição. Os cristãos se destacam na história como um povo que defende e ajuda os pobres, os marginalizados e os oprimidos. Inúmeros foram as organizações e movimentos que lutaram pela justiça social e ministraram aos menos favorecidos (como Francisco de Assis e John Wesley com o metodismo).

Muitos foram os profetas no Antigo Testamento que pregavam contra a injustiça social de seu dia e conclamavam ao arrependimento. No Novo Testamento, Tabita (Dorcas) “fazia boas obras e dava esmolas” (At 9:36). A igreja de Jerusalém, nos seus primeiros anos, praticava a venda de propriedades para ajudar os pobres e instituíram o cargo de diáconos para que cuidassem das necessidades físicas da comunidade. Mais tarde as igrejas da Ásia Menor, Macedônia e Acaia fizeram uma campanha para ajudar os cristãos desprovidos da Judeia. 

Tradição evangélica – uma vida centrada na Palavra. A tradição protestante, desde a Reforma, tem enfatizado o estudo e a pregação da Bíblia para a evangelização e o crescimento espiritual. Quando um segmento do protestantismo se tornou liberal, os evangélicos mantiveram a ênfase na Palavra.
No Antigo Testamento, Esdras e a escola de escribas que ele iniciou fez muito para o ensino e preservação das Escrituras. Filipe, Paulo e Apolo se destacam no Novo Testamento como grandes evangelistas e pregadores da Palavra de Deus.

Tradição da encarnação – uma vida integrada na comunidade. Este talvez seja o mais difícil de entender, mas diz respeito à integração na comunidade para servir como agente do Reino de Deus para a transformação da comunidade. É ser “sal” e “luz” onde quer que se esteja. O exemplo de movimento neste sentido que podemos citar é dos morávios que enviaram milhares de missionários ao redor do mundo. Estes não eram sustentados pela sua comunidade cristã de origem, mas se integravam à comunidade hospedeira, trabalhando e convivendo com os povos que queriam ganhar. Tornavam-se um deles para poder ganha-los para Cristo.

Paulo escreveu: “Pois, sendo livre de todos, tornei-me escravo de todos para ganhar o maior número possível: para os judeus, tornei-me judeu, para ganhar os judeus. Para os que estão debaixo da lei, como se eu estivesse debaixo da lei..., para ganhar os que estão debaixo da lei. Para os que estão sem lei, como se estivesse sem lei..., para ganhar os que estão sem lei. Para os fracos tornei-me fraco, para ganhar os fracos. Tornei-me tudo para com todos, para de todos os meios vir a salvar alguns” (At 9:19-22).
Todos nós fomos influenciados por pelo menos uma destas tradições. Por desconhecer ou não se sentir confortável com a expressão da espiritualidade de algumas das outras tradições, a tendência é achar que somente a nossa está correta e que as outras estão equivocadas. Todas têm equívocos, mas todas também têm o seu ponto forte. Aprender a reconhecer, respeitar e apreciar outras tradições pode enriquecer a nossa própria espiritualidade.

O nosso padrão supremo é o Senhor Jesus. No exemplo de vida que ele nos deixou, vemos elementos de todas estas tradições. Jesus praticou a contemplação no início do seu ministério quando passou 40 dias no deserto e ao longo de seu ministério regularmente reservava tempo para oração, separando-se das multidões para estar a sós com o Pai. Jesus viveu uma vida santa, sem pecado, diante de todos. Também viveu no “poder do Espírito” (Lc 4:14), realizando grandes sinais e milagres. Ele foi um defensor dos pobres, viúvas e estrangeiros, compadecendo-se e servindo as pessoas à margem da sociedade, criticando os que os oprimiam. Jesus era profundo conhecedor das Escrituras, discutindo com os mestres da lei desde os 12 anos de idade, ensinava e pregava nas sinagogas, para os discípulos, como também para multidões. Jesus é o exemplo supremo da encarnação, deixando sua glória junto ao Pai para se tornar ser humano, vivendo entre o povo como cidadão comum. Nasceu humildemente em uma manjedoura, exerceu uma profissão braçal, dormiu, comeu e caminhou juntamente com as multidões.

Se Jesus foi exemplo de todos estes aspectos da vida cristã, nós também devemos aprender com os que têm mais experiência do que nós em determinadas tradições. Desta forma teremos uma espiritualidade mais equilibrada e sadia e desenvolveremos um maior respeito e tolerância por outras formas de expressão da espiritualidade.




[1] Teague, David. Godly Servants: Discipleship and Spiritual Formation for Missionaries. Mission Imprints, 2012. Kindle Edition, p. 101.
[2] Informações da classificação tirada de Wikipédia: Classificação Tipológica de Myers-Briggs, http://pt.wikipedia.org/wiki/Classifica%C3%A7%C3%A3o_tipol%C3%B3gica_de_Myers_Briggs
[3] Foster, Richard J. Streams of Living Water: Celebrating the Great Traditions of Christ. Harper Collins. Kindle Edition, 2010.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Templo e a Igreja Cristã

Quando se fala em edifícios onde se reúne a igreja cristã, no meio católico costuma-se ouvir falar muito em santuários (lugares santos). No meio evangélico, chama-se as vezes o prédio de templo e o salão interior de cultos de santuário. Tenho procurado entender o porquê desta terminologia. Quando usamos estes termos, o sentido que se passa (consciente ou inconscientemente) é que o local em que fica o prédio da igreja ou o espaço onde se faz os cultos é “santo” ou “sagrado”, local da habitação de Deus. Para algumas pessoas, este é o lugar em que se deve ir para encontrar a Deus.

Vejo estes conceitos como equivocados. Primeiramente, podem dar a impressão que Deus se limita a alguns lugares, quando o ensino bíblico é de que ele está em todas as partes ou, aliás, todos os lugares estão na sua presença. Ele é onipresente, sua presença ocupa todos os espaços e ele não é limitado pelo espaço ou a geografia.

Templo de Salomão
Em segundo lugar, dão a ideia de separação entre o sagrado e o profano. Em outras palavras, alguns lugares e objetos são sagrados enquanto que o restante não o é. Esta separação não existe mais na Era da Graça. Não existem espaços sagrados de adoração na igreja cristã. No Antigo Testamento vemos Deus dando instruções específicas sobre o tabernáculo e posteriormente o Templo que foi construído em Jerusalém. Estes espaços eram sagrados, contendo até distinção de grau de santidade: o lugar santo e o santo dos santos. Porém estas instruções designando um lugar santo eram temporárias (durante o período da Antiga Aliança) e tinham prazo para acabar – a morte de Cristo na cruz – estabelecendo assim uma Nova Aliança. Hebreus nos explica: “Porque Cristo não entrou em santuário feito por mãos, figura do verdadeiro, porém no mesmo céu, para comparecer, agora, por nós, diante de Deus;”(9:24). O tabernáculo e o Templo eram figuras temporárias do verdadeiro templo que está nos céus – não na igreja cristã (veja Ap 3:12; 7:15; 11:1-2, 19; 14:15, 17; 15:5-6, 8; 16:1,17).

Quando Jesus teve um encontro com a mulher samaritana ao lado de um poço aos pés do Monte Gerizim, a mulher lhe perguntou: “Nossos pais adoravam neste monte; vós, entretanto, dizeis que em Jerusalém é o lugar onde se deve adorar.” (Jo 4:20). Os judeus adoravam em Jerusalém. Os samaritanos tinham construído um temple no Monte Gerizim para adorar a Deus. Ele foi destruído pelos Macabeus (judeus) algumas décadas antes, mas os samaritanos ainda adoravam a Deus naquele monte. A mulher samaritana queria saber qual dos dois lugares era o lugar certo para adorar. Poderia-se esperar que sendo judeu Jesus responderia ser Jerusalém. No entanto ele respondeu: “Mulher, podes crer-me que a hora vem, quando nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. [...] Mas vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores. Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade.”

Jesus já estava adiantando para ela que o local não seria mais importante. Não é o Monte Gerizim e nem o Templo em Jerusalém. Deus é espírito e pode ser adorado em qualquer local, independentemente de edifício próprio para a adoração. Pode ser em uma casa, na rua, debaixo de uma árvore ou em qualquer lugar. Ele não tem lugar fixo para se encontrar com seus adoradores. Em 70 d.C. o Templo de Jerusalém foi destruído e nunca mais reconstruído. Até o quarto século os cristãos se reuniam nas casas. Prédios para culto são uma conveniência nossa, não uma exigência de Deus. Estes prédios podem ser dedicados ao Senhor, mas não têm caráter mais santo do que outro local.

Na era da Igreja, todos os que são discípulos de Jesus é que são considerados templos ou santuários de Deus (ou do Espírito Santo). “Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá; porque o santuário de Deus, que sois vós, é sagrado.” (1Co 3:16-17 – veja também 1 Co 6:19; 2 Co 6:16 e Ef 2:21). São as pessoas que são santas, separadas para Deus e habitadas pelo seu Espírito Santo.

Portanto, será que vale a pena continuar usando esta terminologia do Antigo Testamento (santuário e templo) para falar dos nossos locais de culto?

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Fidelidade e Compromisso

Ultimamente tenho reparado mais em uma característica humana que é especialmente evidente em nossa cultura e sociedade. Falo da tendência que temos de nos entusiasmar e participar de eventos especiais e de negligenciar as atividades corriqueiras. Amamos ir aos shows e festas, mas temos preguiça e até pavor em fazer as atividades repetitivas, mas necessárias, como ir às aulas do nosso curso ou arrumar a casa. Continuar a fazer aquilo que é necessário, mas que não nos traz o mesmo nível de trazer, exige disciplina, compromisso e caráter. Muitos optam por se envolver quase que exclusivamente com aquilo que está em evidência ou o que dá prazer, negligenciando tudo aquilo que exige disciplina e compromisso.


Na vida espiritual não é diferente. Na igreja evangélica estamos assistindo ao fenômeno dos grandes eventos e shows para manter a presença do público, sempre com muita energia e emoções fortes. É mais fácil conseguir a cooperação dos membros em atividades que envolvam estar em evidência ou para atividades especiais. Leitura diária e estudo da Bíblia, vida de oração, assiduidade aos cultos regulares, fidelidade nas contribuições financeiras e compromisso com um serviço regular na igreja são coisas raras nos nossos dias.


Apesar de não ser popular, a fidelidade é uma das grandes virtudes do cristão. Em 1 Coríntios lemos: “Assim, os homens devem nos considerar servos de Cristo encarregados dos mistérios de Deus. Além disso, o que se requer de pessoas assim encarregadas é que sejam encontradas fiéis” (4:1-2). Todo cristão tem uma missão a cumprir e uma responsabilidade no seu relacionamento com Deus. O que se requer de cada um de nós é que sejamos fiéis e constantes no nosso relacionamento com Deus e no cumprimento de nossa missão neste mundo como membro do corpo de Cristo e agente do Reino de Deus.

Jesus contou uma parábola em Mateus capítulo 25 em que um senhor encarrega seus servos com recursos para que as gerenciassem durante uma longa viagem que iria fazer. Na sua volta ele pediu contas do que fizeram com estes recursos. Dois se saíram bem, pois tinham sido fiéis, cumpriram sua missão, multiplicaram os recursos e foram recompensados. O terceiro foi preguiçoso, sem compromisso e punido pelo seu senhor no momento de prestar contas. A frase repetida pelo senhor para os dois primeiros servos foi: “Muito bem, servo bom e fiel; foste fiel sobre pouco; sobre muito te colocarei; participa da alegria do teu senhor!”. Ao final de outra parábola registrada em Lucas 19, Jesus ensina que: “Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito; quem é injusto no pouco, também é injusto no muito”.

Como será que está a nossa fidelidade nas pequenas coisas, naquelas em que ninguém ou poucos vêm e naquelas que exigem disciplina e compromisso. Temos cultivado um relacionamento pessoal com Deus? Temos sido honestos nas pequenas coisas? Temos contribuído mensalmente com a nossa igreja local e com missões? Temos sido assíduos aos cultos de adoração, estudos bíblicos e reuniões de oração? Temos colocado os dons e habilidades que o Senhor nos deu a serviço do Reino? Senhor, molde nosso caráter, cultive em nós a disciplina pessoal e ajude-nos a manter os nossos compromissos!

domingo, 18 de maio de 2014

Unção de Enfermos

Em visita a qualquer livraria evangélica, provavelmente se encontrará uma prateleira ou vitrine com uma variedade de óleos a venda. Muitos pastores usam estes óleos (ou então óleo de cozinha ou azeite) para derramar na testa ou na cabeça das pessoas enfermas ou dos que estão buscando uma bênção, juntamente com a oração. Esta prática é necessária? É bíblica?

No Antigo Testamente, principalmente no Pentateuco, após a saída do povo de Israel do Egito, Deus ordenou a Moisés que os levitas preparassem um óleo de unção (Ex 30:22-28) que seria usado para ocasiões e propósitos especiais. Era um azeite especialmente preparado misturando-se especiarias que seria usado na consagração de sacerdotes, objetos do tabernáculo, profetas e reis.

Além deste uso especial, nas culturas dos tempos bíblicos o óleo (ou azeite) tinha diversos fins: Alimentação (1 Rs 17:12). Este um uso ainda é o mais comum nos dias de hoje.

Cosmético (Sl 104:15). Usava-se o azeite para passar no corpo para proteger contra a pele seca. Não havia Óleo Johnson na época. Em Ez 16:8-10 Deus usa uma metáfora de um recém-nascido abandonado para falar de Israel, onde depois de encontrar o bebê, a pele do seu corpo recebeu uma aplicação de azeite. Quando misturado com especiarias, era usado como se usa uma colônia ou perfume (Am 6:6). Ester usou esta mistura durante seis meses para se preparar para encontrar o rei (Et 2:12).

Recepção de hóspedes (Sl 23:5; Lc 7:46). Ungir a pessoa com um azeite aromático era uma forma honrosa de se receber hóspedes. Muitos versículos falam do “óleo sobre a cabeça” como sendo uma coisa boa, agradável (Sl 133:1-2; 141:5; Pv 27:9; Ec 9:8; etc.).

Iluminação (Mt 25:1-8). Como não havia luz elétrica naquela época, usavam-se lâmpadas (lamparinas) a óleo.

Ferimentos (Is 1:6; Lc 10:34 – história do Bom Samaritano). Como naquela época ainda não havia medicamentos fabricados cientificamente, usava-se medicamentos caseiros, entre eles o azeite misturado com ervas.

No Novo Testamento temos duas instâncias onde o óleo é usado em conjunto com oração, trazendo cura. O primeiro encontra-se em Mc 6:13 onde os discípulos, enviados em missão por Jesus, pregaram arrependimento, expulsaram muitos demônios, ungiram os doentes com óleo e os curaram. O segundo encontra-se em Tg 5:14-15: “Está doente algum de vós? Chame os anciãos da igreja, e estes orem sobre ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor; e a oração da fé salvará o doente e o Senhor o levantará; e, se houver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados”. Repare que é a oração com fé que é responsável pela cura. Devemos sempre lembrar que a fonte da cura é divina. No texto de Tiago vemos que duas coisas são utilizadas na cura: unção com óleo e oração. O óleo não tem poder milagroso em si. Ele simplesmente representa o tratamento físico: óleo nos dias bíblicos, tratamentos medicamentosos e cirúrgicos nos dias de hoje.

O que podemos concluir quanto ao uso da unção com óleo para cura nos dias de hoje? Primeiro, não é errado usá-lo, contanto que não seja visto como óleo milagroso e se torne instrumento de idolatria, como aconteceu com a serpente de bronze que foi usado no deserto para curar os israelitas das picadas de serpente. Infelizmente, hoje tem muita gente pondo sua fé no óleo em vez de Deus e muita gente usando ou vendendo óleo bento como se o óleo em si fosse abençoado ou tivesse propriedades milagrosas. 

Acho que a visão mais correta, no entanto, é entender a unção com óleo como símbolo do tratamento médico-cirúrgico, sendo então o uso da medicina associado à oração da fé. Deus pode curar com o sem as terapias humanas, mas a nossa dependência para a cura tem que estar sempre baseada nele.